Assinar um contrato de compra e venda de imóvel sem ler com atenção é um dos erros mais caros que um comprador pode cometer. Ao contrário de outros contratos que podem ser rescindidos com relativa facilidade, o contrato de compra e venda imobiliário cria obrigações financeiras sérias — e as cláusulas desfavoráveis podem custar dezenas de milhares de reais.
A boa notícia é que você não precisa ser advogado para identificar os pontos críticos. Neste guia, vamos percorrer as principais cláusulas que precisam de atenção e mostrar o que perguntar ou negociar antes de assinar.
Por Que Ler o Contrato Com Atenção Antes de Assinar
Um contrato de compra e venda de imóvel típico tem entre 15 e 40 páginas. A tentação de confiar no corretor ou na construtora e "só assinar" é grande — especialmente depois de semanas ou meses procurando o imóvel certo e na euforia de ter encontrado.
Mas os contratos são redigidos por advogados que defendem os interesses do vendedor. Cláusulas que parecem neutras podem ser muito desfavoráveis ao comprador em caso de conflito.
Exemplos de situações que cláusulas contratuais determinam:
- O que acontece se você precisar desistir da compra após assinar
- Qual o percentual de multa por atraso no pagamento
- O vendedor pode cancelar a venda unilateralmente? Com que condições?
- Os gastos de cartório e ITBI são do comprador ou divididos?
- Quem paga as dívidas antigas do imóvel (condomínio, IPTU atrasado)?
Essas são decisões financeiras que podem envolver valores de R$ 10.000 a R$ 100.000. Vale muito a pena dedicar 2 horas para ler o contrato com atenção — e de preferência com um advogado especializado em direito imobiliário revisando.
As Cláusulas Mais Importantes Para Verificar
1. Identificação Completa das Partes e do Imóvel
Parece óbvio, mas é fundamental conferir:
- Nome, CPF e estado civil corretos de todos os vendedores
- Endereço completo e número de matrícula do imóvel no Cartório de Registro
- Área total e área privativa (no caso de apartamento)
- Número da vaga de garagem (se incluída na venda)
Qualquer erro aqui pode travar o processo no cartório. Se o imóvel for adquirido de um casal, ambos os cônjuges precisam assinar — mesmo que apenas um conste no registro do imóvel.
2. Preço, Forma de Pagamento e Índice de Correção
Verifique:
- O valor total e o valor de cada parcela estão explícitos?
- Qual o índice de correção das parcelas? (INPC, IGP-M, IPCA)
- Há prazo para pagamento após a contemplação (no caso de consórcio ou financiamento)?
- Como funciona o sinal (arras)? É confirmatório ou penitencial?
Diferença importante entre tipos de arras:
- Arras confirmatórias: o sinal confirma o negócio. Se o comprador desistir, perde o sinal. Se o vendedor desistir, devolve em dobro. Não há multa adicional.
- Arras penitenciais: qualquer das partes pode desistir pagando o equivalente ao sinal como penalidade. É mais vantajosa para negociações com maior incerteza.
3. Prazo de Entrega das Chaves e Multa por Atraso
Para imóveis usados, essa cláusula é mais simples: a entrega geralmente acontece na assinatura ou em poucos dias. Para imóveis na planta, é crucial verificar:
- A data de entrega prevista está no contrato? (Muitos contratos colocam apenas "previsão", sem compromisso formal)
- Qual o prazo de tolerância para atraso? (O padrão da lei é 180 dias; mais do que isso é questionável)
- Qual a multa por atraso além do prazo de tolerância? (Deve ser no mínimo 1% do valor do imóvel por mês)
O STJ tem jurisprudência consolidada sobre multa por atraso de construtora. Se o contrato tentar limitar essa multa abaixo do razoável, a cláusula pode ser contestada judicialmente.
4. Cláusula de Rescisão e Penalidades
Esta é provavelmente a cláusula mais importante do contrato. Ela define o que acontece se alguma das partes precisar desistir do negócio.
Pontos críticos a verificar:
- Qual o percentual de multa se o comprador desistir?
- Qual o prazo para devolução dos valores pagos?
- A devolução é corrigida monetariamente? Com qual índice?
No caso de contratos com construtoras, a Lei 13.786/2018 (Lei do Distrato) estabelece limites para as multas de rescisão: máximo de 25% dos valores pagos para empreendimentos sem patrimônio de afetação, e 50% para empreendimentos com patrimônio de afetação.
Contratos que tentam cobrar multas acima desses limites são abusivos e podem ser contestados.
5. Responsabilidade Por Débitos do Imóvel
Ao comprar um imóvel, é fundamental definir quem paga as dívidas existentes:
- IPTU atrasado: pode ser executado pelo município contra o atual proprietário, mesmo que a dívida seja de gestão anterior
- Taxas de condomínio em atraso: seguem o imóvel (propter rem) — quem compra herda as dívidas
- Dívidas de água e luz: geralmente transferidas para o nome do comprador após a escritura
O contrato deve deixar explícito que o vendedor garante a quitação de todas as dívidas do imóvel até a data da escritura, ou que o comprador desconta essas dívidas do preço.
Antes de assinar qualquer contrato, confirme se a documentação do imóvel está em ordem — o guia sobre documentação completa para compra e venda de imóvel mostra todos os documentos que devem ser solicitados ao vendedor.
6. Condições Suspensivas: O Que Acontece se o Financiamento For Negado
Se você vai financiar parte do imóvel com o banco, o contrato precisa ter uma cláusula suspensiva que proteja você em caso de negativa do crédito.
Sem essa cláusula, se o banco negar o financiamento, você pode ser obrigado a pagar a multa de rescisão sobre os valores já pagos — mesmo tendo feito tudo certo da sua parte.
A cláusula suspensiva deve dizer algo como: "Esta transação está condicionada à aprovação de financiamento bancário no valor de R$X. Em caso de reprovação por parte da instituição financeira, o contrato fica rescindido sem ônus para o comprador."
Itens Que Ficam Ou Que São Levados
Especialmente em imóveis usados, é frequente haver divergências sobre o que fica no imóvel e o que o vendedor pode levar. O contrato deve listar explicitamente:
Equipamentos que geralmente ficam (salvo acordo contrário):
- Ar-condicionado fixado na parede
- Armários embutidos (cozinha, quartos)
- Lustres e luminárias fixas
- Persianas e cortinas de trilho fixo
O vendedor pode levar (salvo acordo contrário):
- Eletrodomésticos
- Móveis soltos
- Objetos de decoração
Para evitar conflitos no dia da entrega, liste no contrato todos os itens que ficam e os que são levados. Se você viu o imóvel com armários da cozinha e quer garantir que eles fiquem, coloque isso por escrito.
Como Negociar Cláusulas Desfavoráveis
Muitas pessoas acham que o contrato "é padrão" e não pode ser modificado. Não é verdade — qualquer cláusula pode ser negociada. O que determina o sucesso da negociação é o interesse das partes e a clareza do pedido.
Cláusulas que os compradores geralmente conseguem melhorar com negociação direta:
- Redução da multa de rescisão (especialmente em imóveis usados)
- Prazo maior para quitação após aprovação do financiamento
- Inclusão de condição suspensiva para financiamento
- Responsabilidade do vendedor por dívidas anteriores
Para verificar a saúde financeira do imóvel e do vendedor antes de assinar, o artigo sobre como calcular a rentabilidade de um imóvel para aluguel pode ser útil se você está comprando como investimento.
Quando Vale a Pena Contratar um Advogado
Para imóveis acima de R$ 200.000, a revisão por um advogado especializado em direito imobiliário é um investimento que se paga. Os honorários para revisão de contrato costumam ficar entre R$ 800 e R$ 2.500 — um custo baixo comparado ao risco de perder R$ 20.000 em uma rescisão mal negociada.
Situações onde o advogado é especialmente recomendado:
- Imóvel com inventário em andamento
- Vendedor com restrições no CPF ou dívidas conhecidas
- Imóvel com ação judicial pendente
- Compra de imóvel comercial
- Contrato com construtora de menor porte
Conclusão
Analisar um contrato de compra e venda de imóvel é uma habilidade que todo comprador deveria ter — ou pelo menos saber quando buscar ajuda especializada. As cláusulas de rescisão, a responsabilidade por débitos e as condições de entrega são os pontos que mais geram conflito e prejuízo para compradores desatentos.
Nunca assine sob pressão. "Essa proposta é válida só hoje" é uma tática de pressão comercial — um vendedor sério não vai perder um comprador qualificado porque ele pediu 48 horas para ler o contrato com atenção.
Comprar um imóvel é uma das maiores decisões financeiras da sua vida. Merece a atenção que você daria a qualquer contrato que pode impactar seu patrimônio por décadas.
Perguntas Frequentes
O contrato de compra e venda precisa ser registrado em cartório?
O contrato em si não precisa, mas a escritura pública precisa ser registrada no Cartório de Registro de Imóveis para que a transferência de propriedade seja oficial. Sem o registro, o imóvel ainda legalmente pertence ao vendedor perante terceiros.
Posso assinar contrato de gaveta sem escritura?
Legalmente é possível, mas é arriscado. O "contrato de gaveta" não transfere a propriedade — apenas cria uma obrigação entre as partes. Se o vendedor falecer, tiver dívidas ou vender o imóvel novamente, o comprador terá que recorrer à Justiça para regularizar.
Qual a diferença entre promessa de compra e venda e escritura definitiva?
A promessa de compra e venda é o contrato inicial (pode ser particular ou público). A escritura definitiva é o documento final, lavrado em cartório, que transfere formalmente a propriedade. Em compras financiadas, a escritura costuma ser substituída pelo contrato de financiamento bancário.
Quanto tempo depois de assinar o contrato tenho para fazer a escritura?
Não há prazo legal obrigatório, mas é recomendável fazê-la o mais rápido possível após a quitação. Cada mês de atraso é um mês em que o imóvel ainda está tecnicamente no nome do vendedor.
O vendedor pode desistir da venda depois de assinar o contrato?
Pode, mas deverá pagar a penalidade prevista no contrato (geralmente devolução em dobro das arras) e indenizar o comprador pelos prejuízos causados. O Código Civil garante ao comprador o direito de exigir o cumprimento forçado do contrato ou a rescisão com indenização.

