A burocracia documental é um dos maiores medos de quem está comprando ou vendendo um imóvel. Um documento errado, desatualizado ou faltante pode atrasar o fechamento por semanas — ou, em casos mais graves, revelar problemas que inviabilizam a negociação.

Neste guia você vai encontrar a lista completa de documentos necessários para ambos os lados da transação em 2026, com explicações sobre o que cada documento verifica e como obtê-lo.

Por Que a Documentação É Tão Importante

A compra e venda de imóvel envolve valores altos e riscos reais. Sem a devida verificação documental, você pode:

  • Comprar um imóvel com dívidas atreladas (IPTU atrasado, condomínio em débito, hipoteca)
  • Adquirir um bem que está em inventário ou disputado na Justiça
  • Fechar negócio com alguém que não é o proprietário legítimo
  • Descobrir depois que o imóvel tem irregularidades construtivas que impedem financiamento

A documentação não é burocracia pelo burocracia — é a proteção do comprador e do vendedor.

Documentos do Imóvel (Obrigatórios para Qualquer Transação)

Matrícula Atualizada do Imóvel

A matrícula é o "RG" do imóvel. Registrada no Cartório de Registro de Imóveis (CRI), ela contém toda a história do bem: quem são os proprietários, se há hipoteca, penhora, usufruto ou qualquer outra restrição.

Onde obter: Cartório de Registro de Imóveis da comarca onde o imóvel está localizado (presencialmente ou online em muitos estados)

Validade: A matrícula deve ser emitida há no máximo 30 dias

Custo: R$ 30 a R$ 80, dependendo do estado

Se a matrícula mostrar que o imóvel tem ônus — hipoteca, penhora, alienação fiduciária — o vendedor precisa quitá-los antes da transferência ou o comprador precisa estar ciente e aceitar assumir a situação.

Certidão Negativa de Débitos do Imóvel (IPTU)

Emitida pela Prefeitura, confirma que não há IPTU atrasado vinculado ao imóvel. Dívidas de IPTU seguem o imóvel — se o vendedor deve anos de imposto, o comprador pode ser cobrado.

Onde obter: Portal da Prefeitura do município ou presencialmente

Custo: Gratuita na maioria dos municípios

Certidão de Ônus Reais

Detalha se há penhoras, hipotecas ou outros gravames sobre o imóvel. Complementa a matrícula com informações mais recentes.

Onde obter: Cartório de Registro de Imóveis

Custo: R$ 20 a R$ 60

Certidão de Inteiro Teor (para imóveis em condomínio)

Para apartamentos e imóveis em condomínio, verifique se há débitos de taxa condominial. Assim como o IPTU, as dívidas de condomínio acompanham o imóvel.

Onde obter: Administradora do condomínio (carta assinada pelo síndico ou administradora)

Habite-se

Para imóveis novos ou reformados, o Habite-se é o documento emitido pela Prefeitura que atesta que a construção foi executada dentro das normas aprovadas e está apta para habitação. Imóveis sem Habite-se têm restrições para financiamento bancário.

Documentos do Vendedor (Pessoa Física)

DocumentoFinalidadeOnde Obter
RG e CPFIdentificaçãoQualquer
Comprovante de residênciaEndereço atualConta de serviço público
Certidão de estado civilConfirmar se há cônjuge com direito ao imóvelCartório de registro civil
Certidão de casamento (se casado)Regime de bens que afeta a vendaCartório
Certidão negativa de ações cíveisVerificar se há processos contra o vendedorTribunal de Justiça estadual
Certidão negativa de protestosVerificar se há títulos protestadosCartório de Protestos
Certidão negativa da Receita FederalVerificar situação perante o fiscoSite da Receita Federal
Certidão negativa trabalhistaPara autônomos e empresáriosTRT da região

Por que certidões negativas do vendedor? Se o vendedor tiver processos ou dívidas contra ele, os credores podem pedir a anulação da venda em juízo (especialmente se ficar provado que houve fraude à execução). Comprar de alguém com passivo judicial relevante é arriscado.

Documentos do Comprador

Se você está comprando com recursos próprios (sem financiamento), os documentos são mais simples:

  • RG e CPF
  • Comprovante de residência
  • Certidão de estado civil

Se o imóvel for comprado em conjunto com cônjuge, o cônjuge também assina a escritura e precisa apresentar a mesma documentação.

Se for financiamento bancário, o banco pedirá adicionalmente:

  • Holerites dos últimos 3 meses (ou declaração de IR para autônomos)
  • Extrato bancário dos últimos 3 meses
  • Declaração de IR completa do último exercício
  • Certidão de débitos trabalhistas (para autônomos/empresários)

Para entender melhor como funcionam as taxas de juros nos financiamentos em 2026, veja nosso guia sobre taxa de juros no financiamento imobiliário.

Documentos para Vendedor Pessoa Jurídica (Empresa)

Quando o vendedor é uma empresa, a lista de documentos é maior:

  • Contrato social e todas as alterações registradas
  • CNPJ e certidão da Junta Comercial
  • Atas de reunião autorizando a venda (para S/A ou LTDA com múltiplos sócios)
  • Certidões negativas de tributos federais, estaduais e municipais
  • Procuração com poderes específicos para venda (se o representante não for sócio-administrador)

Empresas em recuperação judicial ou falência têm restrições para vender imóveis — verifique a situação no JUCESP ou equivalente estadual.

O Passo a Passo da Documentação até a Escritura

1. Assinatura do Contrato de Promessa de Compra e Venda

Antes da escritura, as partes normalmente assinam um contrato particular de promessa de compra e venda. Nesse momento:

  • Define-se o preço e a forma de pagamento
  • O comprador entrega o sinal (normalmente 10% a 30% do valor)
  • Estabelece-se prazo para a escritura

Recomenda-se registrar esse contrato em cartório para dar publicidade ao negócio.

2. Coleta e Análise da Documentação

Com o contrato assinado, ambas as partes coletam os documentos listados acima. Um advogado imobiliário ou o próprio corretor analisa as certidões e identifica possíveis impedimentos.

3. Pagamento do ITBI

O Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) é cobrado pelo município sobre toda transação imobiliária. A alíquota varia de 2% a 4% do valor de venda (em São Paulo é 3%). O ITBI é pago pelo comprador antes da escritura.

Saiba como calcular e pagar o ITBI corretamente para não ter surpresas na reta final da negociação.

4. Lavratura da Escritura no Cartório de Notas

Com toda a documentação aprovada e o ITBI pago, as partes comparecem ao Cartório de Notas para assinar a escritura pública. O custo da escritura varia de acordo com o valor do imóvel e o estado (em média, 1% a 2% do valor do bem).

5. Registro da Escritura no Cartório de Registro de Imóveis

A escritura só transfere a propriedade de fato após ser registrada na matrícula do imóvel no CRI. Sem o registro, a compra não tem validade perante terceiros. O custo do registro varia, mas gira em torno de 0,5% a 1% do valor do imóvel.

Perguntas Frequentes

O comprador pode exigir todas essas certidões antes de assinar o contrato?

Sim, e é recomendado. O comprador tem o direito de pedir qualquer documento para diligência antes de se comprometer com o negócio. Um vendedor sério não tem problema em fornecer a documentação.

Posso fazer escritura sem certidões negativas do vendedor?

Tecnicamente, o cartório não é obrigado a exigir todas as certidões para lavrar a escritura. Mas o comprador que assina sem essas verificações assume o risco de uma ação de anulação futura caso o vendedor tivesse dívidas ou processos que justificassem fraude à execução.

O que é fraude à execução e como me proteger?

Fraude à execução ocorre quando o vendedor aliena um bem sabendo que tem dívidas em processo judicial que poderiam levá-lo à insolvência. Para se proteger, obtenha certidões negativas atualizadas e considere contratar um advogado para análise jurídica da transação.

Quanto tempo leva para juntar toda a documentação?

Com organização, o vendedor consegue reunir os documentos em 5 a 10 dias úteis. A maior demora costuma ser a matrícula atualizada do CRI (1 a 3 dias) e as certidões dos tribunais (imediato a 5 dias, dependendo do estado).

Preciso de advogado para comprar ou vender um imóvel?

Não é obrigatório por lei, mas é altamente recomendado para transações acima de R$ 500.000 ou quando houver qualquer irregularidade identificada. O custo do advogado (normalmente 0,5% a 1% do valor do imóvel) é muito menor que o custo de um processo judicial futuro.